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Quarta-feira, Dezembro 31, 2003



Foto: webshots

FELIZ ANO NOVO !!!
A todos que passam por aqui e me fazem companhia, participam dos meus momentos, me aturam, me apoiam e leem as minhas bobagens.
Que o proximo ano seja melhor pra' todos nos!
Que a PAZ em cada casa, sirva de reflexo para a PAZ no mundo...

Joga farofa no ventilador:


Gente, eu tava doente.
Peguei uma influenza daquelas que me deixou arriada durante todos os feriados natalicios.
No dia 24 eu ja' acordei com uma dor de cabeça infernal e pensava que era pela tensao do trabalho acumulado mais o pensamento de ter que cozinhar para o bendito almoço com a ex-familia no dia 25. De tarde, com uma nausea tremenda ainda consegui fazer um manjar de coco, um pudim de leite Moça, uma torta de bacalhau e um monte de rabanadas. A noite de Natal passou que eu nem percebi! Também, como diz a Leticia, aqui no Zimbawe nao se percebe nada... nem carnaval! Imagina Natal... Capotei na cama e queria morrer, mas nao podia faltar ao bendito almoço, senao "a outra" podia pensar que estava fazendo cu doce.
Fomos pro almoço e tudo correu bem, ja' que nao consegui comer quase nada e so' de ver o exagero de comida minha cabeça rodava. "A outra" perguntou se eu estava com medo de comer a comida dela, respondi com uma tossida encatarrada. Depois de quase tres horas na mesa, consegui me aninhar num cantinho do sofa' e ficar olhando a distribuiçao de presentes. Eu nao ganhei nada (oops.. ja' tinha recebido a panela...), a Juliana também nada. Meu marido, depois de muito rodar, conseguiu comprar sozinho o presente pra' "outra": um cestinho de produtos de beleza natural, à base de algas marinhas, pra' tentar dar uma razao de viver àquela pele de pergaminho. Pra' cada um dos filhos, ele deu um quadro que pintou durante o periodo que fazia o homem-rato no porao. Eu dei pra' ele um golf (casaco sem botao) tipo cacharel de cashmere blu.
O momento clou da festa foi quando, durante a digestao, sentados no chao e chupando tangerina, assistimos aos velhos slides do tempo que eram felizes... As viagens, os filhos pequenos, o cahorro morto, "a outra" quando era jovem, os pombinhos em Veneza... tudo isso recheado de comentarios e recordaçoes dos velhos tempos, que bonitinho... "Ela" nao aguentou a emoçao e começou a chorar. Ele nao teve nem coragem de olhar pra' mim. Eu continuei calmamente a tomar o meu vinho enquanto pensava que esta' na hora de arrumar um amante.
O silencio constrangedor da viagem de retorno me fez adormecer no carro mesmo. Me joguei na cama e so' consegui levantar 3 dias depois, tive muita febre e nao conseguia comer quase nada. Ainda bem que aqui é feriado no dia 26 e a loja ficou fechada até segunda-feira, quando voltei a trabalhar.

ANO NOVO!!! Bum-Bum-Bam!!!
Sao 10 horas da noite do dia 31 de dezembro. Ja' estou de pijama e super-feliz porque acabei de falar com a minha sobrinha-gravida Paty!!! Moooorrro de saudades.
Xooooo 2003 de merda!

Ano que vem, no fim do ano: Rio de Janeiro (logico, com meu ex-marido... ao menos vai ser divertido!)

Joga farofa no ventilador:

Sexta-feira, Dezembro 26, 2003




To chegando...

Joga farofa no ventilador:

Quarta-feira, Dezembro 24, 2003


BOM NATAL A TODOS!



Joga farofa no ventilador:

Domingo, Dezembro 21, 2003


O Brasil aqui:

Ontem, saiu numa revista feminina, uma reportagem de "promovidas e reprovadas" com algumas mulheres de todo mundo.
O resultado do Brasil, traduzido ao pé da letra:

PROMOVIDA: Marisa Monte
" O Brasil nunca teve uma cantora como Marisa Monte", escreveu recentemente a Revista Veja, que a colocou em segundo lugar entre os personagens do espetaculo mais famosos do pais. Competente, inteligente, bonita, um faro para os negocios fora do comum, a cantora carioca de 36 anos quebrou este ano um velho tabu'. O disco "Tribalistas" e além de tudo a cançao "Ja' sei namorar" foram a trilha sonora do verao italiano. Ja' fazia muito tempo que uma cançao brasileira nao chegava ao primeiro lugar no nosso hit-parade. Tribalistas nasceu como uma experiencia entre amigos. A cantora pop, Marisa Monte, junto a dois musicistas excelentes mas pouco comerciais como Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes. Ela fez a diferença, nao so musicalmente. Hoje Marisa é paquerada por todas as casas discograficas para um repeteco. Mas respondeu que ao menos por uma ano, tem algo melhor para fazer: acabou de ter um filho.

REPROVADA: Benedita da Silva
Ascençao e queda de um mito. Até poucos meses atras, Benedita da Silva era uma das figuras politicas mais admiradas na America Latina, todos a viam com simpatia e admiraçao. Foi a primeira senadora negra do Brasil, a primeira mulher saida de uma favela a chegar no Parlamento para fazer escutar a sua voz pela defesa dos mais pobres. Um trajeto acompanhada com o afeto paterno de Lula, lider de seu partido e atual Presidente do Brasil "minha querida Benedita" foi a sua mençao especial depois da vitoria eleitoral. Nominada Ministro da Politica Social, no inicio de 2003, a mulher perdeu a bussola. Sua gestao foi uma desilusao. Depois pegaram ela descarregando sobre o Ministério o custo de uma viagem pessoal à Argentina. O Brasil é um pais contraditorio. Tem de pior na vida publica, mas a média sabe onde golpear. A sua saida do Governo devera' ser questao de semanas.


Num resumo de noticias estranhas do ano de 2003, publicadas pelo site Libero.it, o Brasil é representado com essas pérolas:

- Sofrendo de dor de ouvido, um lavrador entrou num ambulatorio para curar-se e saiu vasectomizado (segue relato que todo mundo ja' sabe)

- Um presidiario brasileiro tentou fugir do carcere de Taquaritinga (SP) vestido de mulher. Os guardas o prenderem porque ele nao conseguia caminhar com os saltos altos.

- Rogerio Assis Cavalcante, brasileiro, botou fogo na casa (RJ) tentando dar fim nos mosquitos. Pensando que eles nao gostassem da fumaça, teve a brilhante idéia de acender uma fogueira dentro de casa. Os vizinhos chamaram os bombeiros que, ao chegar, encontraram o dito cujo, no meio da fumaça, ainda correndo atras dos bichinhos.

Depois eu conto as italianas...


Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu,
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu.
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar,
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá.
Roda mundo, roda-gigante,
Roda moinho, roda pião.
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
Roda Viva - Chico Buarque



Hoje fui fazer programa de ìndio: supermercado.
Impressionante a quantidade de pessoas que estavam la'.
Irritante o volume dos alto falantes tocando musiquinhas de Natal.
Enervante as filas pra' pesar as frutas, pra' comprar os frios, pra' embrulhar os presentes. Nao sei se ja' falei das filas daqui. O povo nao consegue respeitar de jeito nenhum: eu chamo de "fila à bola". Eh assim: fica todo mundo embolado na frente do balcao e é impossivel saber quem chegou primeiro, no final acaba tudo na maior gritaria, é impossivel nao brigar quando um idiota que chegou ali meia hora depois de voce e consegue ser atendido primeiro. Depois dizem que brasileiro gosta de levar vantagem em tudo.
Acabei nao comprando nem a metade das coisas que devia e saì de la' com saudades da Sendas de Madureira.
Ao menos consegui comprar uns macacoezinhos lindos (e caros) pras netas do Leo. Ele ficou mais de meia hora tentando achar um presente pra' sua ex e nao conseguiu. Quando me pediu uma sugestao, eu falei: "Porque nao lhe da' uma panela de pressao?".

Grrrr.... odeio compras de Natal.

Joga farofa no ventilador:




To viva!!!!

Joga farofa no ventilador:

Sexta-feira, Dezembro 19, 2003


O FUGITIVO


Joga farofa no ventilador:

Quinta-feira, Dezembro 18, 2003


Este silencio esta' me deixando nervosa.

Joga farofa no ventilador:


Tempo: pouco.
Saco: pouco
Blog: meio abandonado

Noticia surreal do dia:

Michael Jackson se converteu ao islamismo. A vantagem é que nao
vai nem precisar se acostumar com o chador.
O esqueleto de Malcolm X fez teco-teco no caixao.

Consegui escapar da loja e ir no cabelereiro! A mulher queria botar a cuia de novo mas eu decidi mudar o corte. E mudar também a cor. E fazer umas mechas douradas.
Agora eu tenho que comprar roupa nova pra' poder combinar com os cabelos. Ufff...
Neguinho nao falou nada, acho que entrou em estado de choque quando eu mandei ele ir la' pagar os 60 euro da conta. Eu fiquei contente com o lay-out novo.
Poderoooooooooooooooosa.

Joga farofa no ventilador:

Quarta-feira, Dezembro 17, 2003


A semana da lavadeira:



Perto do Natal, como sempre, chegam os eternos atrasadinhos na loja. E exigem.
A toalha de linho com ainda as pingadas de vela vermelha e os restos do cotecchino colados desde o ano passado? Trazem aqui e querem urgencia.
O vestido vermelho cafonérrimo de lameh, todo duro de spumante e com o suor do Natal, sempre de 2002? A madame com cara de Xuxa velha quer novinho em folha pra' amanha de manha.
O terno que o marido usa no Natal pegou mofo? Corre aqui e espere o milagre.

O alfaiate teve um enfarte. Tinham 11 peças pra' consertar antes do Natal. Onde vou achar uma costureira aqui nesse buraco?

Minha mae foi pra' Fortaleza. Telefonei pro seu celular, ela estava na praia e me botou pra' escutar o barulho das ondas.


Canibal de golfinho:

Voce voltou
Fiquei contente
Sumiu de novo
Nao entendi nada
Quando te encontrar
Vou morder a tua orelha
Engulo o pedacinho
Assim de manha
Fazendo a barba
Vai olhar no espelho
Falta um pedaço?
Ah, ah, ah
Ta' dentro de mim

A Julie me deu a dica de como fazer reaparecer o selinho do Mundo Pequeno. Ja' fiz. Diz aeh se deu certo!
Brigadao Ju.

Liçao de italiano (reduzida porque to com pressa...)

Morbido = Macio, Fofo

Joga farofa no ventilador:

Domingo, Dezembro 14, 2003




... da' tua mao, olha pra' mim
nao faz assim, nao vai dar nao

Joga farofa no ventilador:


Finalmente a 'figurinha' do Mundo Pequeno!
Ciao LuMisura!

Joga farofa no ventilador:

Sexta-feira, Dezembro 12, 2003


Gingou béu, gingou béu
acabou o papéu
nao faz mal, nao faz mal
limpa com o jornal


Eita, outro Natal que chega. Chega mesmo. Eu que ja' estava pensando qual pijama vestir no Natal, quando recebo o telefonema daquela que enchia o saco antes de mim (ex mulher) perguntando se eu ja' tinha resolvido se levaria doce ou salgado pra' festa de Natal. Euzinha, que ignorava a existencia de uma noite de Natal em tao agradavel companhia, ja' que os nossos encontros se limitam à troca unilateral de cachorros (quando ela viaja, deixa o dela aqui; eu nao viajo, e nao deixo o meu la'), perguntei se nao tinha errado o numero, pois o que sobrou do marido que ela deixou pra' mim nao tinha me falado nada dessa novidade.
O negocio é o seguinte: durante o perìodo que Ele se recolheu no porao, tentando sem exito em transformar-se no Homem-rato, começou a telefonar pra' toda familia organizando freneticamente um Natal com todos juntos mas 'esqueceu' de falar comigo.
Subitamente adotei a posiçao yoga shaya-di-pertho-Ki-shto-presplodyr, fiz dois respiros profundos e disse que telefonaria depois dando a resposta.

Segue o dialogo:
- posso saber porque v. nao me falou nada? (eu)
- esqueci (ele)
- faltam so' duas semanas pro Natal, eu nao me organizei nem com comida, nem com roupa, nem com presente. Tenho que trabalhar até a véspera e nao terei tempo nem de ir no cabelereiro
- nao tem nada nao, vai come se estivesse em casa
- entao vou de pijama
- faz o que quizer
- vai tomar banho

De tarde Ele saiu. Voltou pra casa com uma enorme caixa e, com cara de sem-graça, botou em cima da mesa dizendo: é pra' voce, vale como presente de Natal... achei estranho pois nao é o tipo de fazer surpresinhas.
Ainda bem que esperei Ele sair pra' abrir a caixa.
Dentro tinha outra panela de pressao.

Lado positivo:
Agora ja' sei o presente que vou comprar pra' ele: uma torneira nova.

Eu sou dificil? eu sou dificil porque sou mulher? as mulheres sao dificeis de entender? é dificil prum homem perceber que tem que tentar entender uma mulher? a mulher nao entende porque é loura? mas se eu sou morena, por que nao entendo? to mesmo ficando maluca? posso enfiar a valvula da panela de pressao dentro da orelha dele?

Vou apertar, mas nao vou acender agora.


Joga farofa no ventilador:

Quinta-feira, Dezembro 11, 2003


Para minha amiga ZEN



Voce nao esta' sozinha...

Joga farofa no ventilador:

Quarta-feira, Dezembro 10, 2003



Foto JB - Marco Terranova
(do livro "Montanhas do Rio")


Nao falar mal do Brasil quando estou com frio

Estava dentro da loja, soprando as maos para me esquentar e olhando pra' fora, tentando adivinhar se a neve ia cair ou nao, quando chega um cliente pra' pegar a roupa:
- Ta' com frio, nao? E'...... no Brasil nao é assim... sempre calor, tanga, carnaval, blablabla. Aqui se sofre!
- .............(cazzi tuoi)
- Ah, queria te perguntar (ih, ih, ih,): mas é verdade que voces tem um politico que é cantor e usa trancinhas (ho, ho, ho)?
- Sim, se chama Gilberto Gil, é Ministro da Cultura e nao é um cantor qualquer nao, é conhecido e respeitado em todo mundo.
- Ah, ah, ah, voces gostam mesmo de brincar. Onde ja' se viu um cantor de trancinhas ser ministro (hu, hu, hu)?
- Aqui certamente nao. Nao somos sérios como voces que tem um Presidente do Conselho condenado pela Justiça.
- ..............

Hoje tava mesmo a fim de mandar alguém chupar um prego até virar parafuso.

A historia da agua mineral envenenada ta' virando paranoia. Agora, de Norte a Sul, as pessoas estao indo pro hospital ou denunciando de ter comprado uma garrafa com alguma coisa estranha dentro: da agua sanitaria a detegente para pratos; aparece de tudo. Me pergunto até onde o excesso de informaçao pode ser culpado, ja' que é impossivel uma so' pessoa ser responsavel pelas seringadas e, na televisao, continuam a bombardear com um exagero de reportagens discutindo o assunto e "convidando" os tantos anormais a fazer a mesma coisa.
Lembro que alguns anos atras, outros malucos ficavam nas passarelas sobre as auto-estradas jogando pedras nos carros que passavam em alta velocidade, chegando até a matar gente. Nao demorou muito para a idéia ser copiada e, em toda a Italia, as pessoas morriam de medo de passar embaixo dos viadutos e passarelas e levar uma pedrada.
Com a quantidade de gente maluca (ou ruim mesmo) e com mania de protagonismo, seria melhor somente informar, sem fazer todo esse alvoroço que so' serve a encher o saco e provocar imitaçoes.

Liçao de italiano

Palavras iguais, significados diferentes:
Cagnòtto (pronuncia igual a canhoto) - nao é uma pessoa que escreve com a mao esquerda, e sim o verme que sai da carne podre
Squisito - nao é um vizinho estranho, e sim um adjetivo para designar uma coisa boa. Ex.: uma pessoa squisita é alguém bom e gentil
Burro - manteiga
Andrea - nome de homem
Simone - nome de homem
Prato - prado
Bravo - nao é um cachorro (ou alguém) danado, e sim um cachorro (ou alguém) bonzinho

Joga farofa no ventilador:

Terça-feira, Dezembro 09, 2003




Mudaram as estações
Nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar
O que ficou
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa

Por enquanto - R. Russo

Joga farofa no ventilador:

Segunda-feira, Dezembro 08, 2003


JUUULIEEEEEEEE!!!!!!!!

Obrigado, obrigado, obrigado
Finalmente consegui botar o contador
ziriguidum, ziriguidum
Eu sou oca mas sou teimosa!
Porém se nao fosse a Julie, estaria pastando até agora...
Vou esperar o proximo feriado pra' botar os links.
Enquanto isso... vou tomar uns cafés na veia


Joga farofa no ventilador:


Quem nao tem o que fazer, é melhor ir dormir.
Um, dois, tres, testada...
uiiiii

Joga farofa no ventilador:

Sexta-feira, Dezembro 05, 2003


Maluco da semana:

Vai pelos supermercados e com uma seringa fura as garrafas de agua mineral, injetando dentro uma substancia venenosa à base de amoniaca. Em 15 dias, ja' fez 9 vitimas, inclusive um recém-nascido. A televisao ja' começou a botar apelidos: "o homem com a seringa" e "agua-bomber".
Caça ao homem, neurose coletiva e colegamentos televisivos em direta garantidos.

Liçao de italiano:

Existem algumas palavras com a mesma pronuncia em portugues, so' que se escreve diferente.
Ex.: GL em italiano é igual a LH em portugues

alho - aglio
folha - foglia
maglia - malha
paglia - palha
caraglio - nome de uma cidade do Piemonte
(como se chama um que nasce la'?)

Musica no meu ouvido:

Pra ser feliz num lugar
Pra sorrir e cantar
Tanta coisa a gente inventa
Mas no dia que a poesia se arrebenta
É que as pedras vão cantar
Pedras que cantam (Fagner)


Nao tenho nem falado em politica, minha cabeça nao tem mais espaço. So' tenho que dizer que as palavras mais escutadas esses dias sao: crise, inconstitucional, censura, conflito de interesse, carestia, greve e republica das bananas (podres). Alguém começa falar também ditadura.

Preço de um panetone vagabundo no supermercado: 8,50 euro. Ainda bem que na minha casa reina a rabanada.

Minha filha foi chamada pra' fazer Papai Noel no Aeroporto de Milano durante os feriados de Natal. Ho-ho-ho.

Bingo bongo é o caraglio.



Joga farofa no ventilador:


Existem otimos filmes que retratam essa situaçao de opressao fisica e mental que até hoje deixaram marcas na cultura latina.

Um deles é LA RAGAZZA CON LA PISTOLA (1969 - Mario Monicelli), com a excelente Monica Vitti no papel de Assunta, uma siciliana desonrada e abandonada que, impossibilitada de viver no seu vilarejo depois de ter feito a 'coisa feia', persegue o desgraçado até a Inglaterra para assassina-lo e restabelecer a sua honra. Mas quando chega la', acaba por emancipar-se. O filme é engraçadissimo e ao mesmo tempo faz um confronto entre o mundo da moça, antigo e preconceituoso, e o seu 'novo mundo' onde as mulheres podem conquistar, através do trabalho, a liberdade de amar quem quizer e poder liberar-se dos homens estupidos. Este filme foi candidato ao Oscar como melhor filme estrangeiro.

Outro é DIVORZIO ALLA ITALIANA (1961 - Pietro Germi), premio Oscar para a cenografia, com Marcello Mastroianni e Stefania Sandrelli. Mostra em maneira grotesca e divertente a realidade siciliana, onde o barao Ferdinando Cefalù (Mastroianni), casado com a horrenda Rosalia mas apaixonado pela prima Angela, organiza um plano rocambolesco para livrar-se da esposa. Depois de realizado o intento, o destino lhe reserva uma amarga surpresinha...

Misturando politica, conflitos sociais e apaixonamentos varios, essas duas obras primas de Lina Wertmuller mostram o choque cultural e o preconceito dos italianos do Norte em relaçao àqueles do Sul, a dificuldade de integraçao e a afirmaçao de valores tao diferentes.
O meu preferido é "Travolti da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto" de 1974, onde a mulher de um rico industrial milanes (Mariangela Melato), goza as férias com amigos no seu luxuoso iate al largo da Sardenha, continuando a ostentar a sua posiçao social ao marinheiro Carunchio (Giancarlo Gianinni em uma interpretaçao fenomenal). Porém os dois se perdem no meio do mar e... Este filme foi aquele que a Madonna fez o remake e foi fiasco total. Bem feito, quem mandou pretender comparar-se com uma lenda.
O outro é "Mimi metallurgico ferito nell'onore" de 1971, ùnico que tive oportunidade de ver pela primeira vez no Brasil, também com o casal Gianinni/Melato, conta a saga de Mimi (Gianinni) operario siciliano de esquerda, licenciado por causa de suas idéias politicas. Obrigado a ir para o Norte, em Torino ele acha trabalho mas continua a passar grandes sufocos, quando descobre que a Mafia controlava tudo também ali.

Quem nao viu, perdeu.


Joga farofa no ventilador:

Quinta-feira, Dezembro 04, 2003



Foto: www.pianetacalabria.com

(...continuaçao)
A nobreza tem muita cara de pau, mas depois do que aconteceu, nao estavam aguentando mais o disse-me-disse do vilarejo. As pessoas cuspiam quando eles passavam e Maria sabia que, naquela atitude, tinha mais a vontade de colher a oportunidade em desprezar a familia de merda, do que recriminar a covardia do velhaco que fugia à responsabilidade.
Como as coisas nao se mexiam, o irmao de Maria resolveu tomar a atitude que lhe cabia. Ele estava mal mas ainda nao estava morto! Pegou a sua velha pistola e com um lenço amarrado em volta da boca, ja' que a doença o fazia cuspir sangue continuamente, montou no asno de familia e la' se foi fazer o que ja' deveria ter feito. Ele nao arriscava nada, mesmo se o encontro acabasse em morte, era até apoiado pela Lei: o artigo 587 do Codigo Penal, naquela época, justificava os delitos cometidos por questoes de honra.
Ela nao sabia de nada e, chegando em casa, surpreendeu-se ao encontrar o seu ùnico homem, com a cabeça baixa, que ja' havia feito a proposta de matrimonio, rapidamente aceitada pela sua familia. A mae correu pra' anunciar à vizinhança.
Se casaram sem pompas nem presentes. O padre e todo o vilarejo fizeram de conta que nao viam o carocinho que começava a aparecer por debaixo do vestido humilde, afinal ela se casava.
Foram morar na casa dela, nao poderia deixar a velha mae com o irmao doente sozinhos ( na verdade, a sogra nao a aceitaria nunca dentro da sua real moradia), onde ajeitaram o quartinho no andar superior e Maria começou a deixar pra' tras toda aquela angustia passada para poder realizar seu sonho.
O féla da puta nao prestava mesmo. Decidiu ir embora pro Norte de qualquer jeito, dizendo à Maria que ali poderiam ter uma vida melhor e dar um futuro ao filho. Porém... ele iria primeiro sozinho, depois que o nenen nascesse mandaria o dinheiro da passagem pra' eles. Ela tentou convence-lo a esperar o nascimento do filho, por que deveria estar ali sem ele? Nao, ele tinha recebido uma proposta urgente, muito dinheiro para recusar. Ela aceitou, nao se podia discutir uma decisao do marido, nao tinha esse direito.
Na noite antes de partir, ansiava uma noite amor. Ganhou um monte de socos na barriga e a ordem de ficar calada, pois sendo seu marido podia agredir e maltratar sem nenhuma consequencia. O neném sobreviveu e ninguém soube de nada.
Trabalhou até começar a sentir as primeiras contraçoes e ainda bem que era abril, com um sol morno de primavera que esquentava o quartinho e nem se sentia mais o cheiro de mofo e fuligem deixado pelo inverno, depois da limpeza completa que ela, ajudada pelas amigas, havia feito tao bem. Cada cantinho era desinfetado e encerado com zelo e, nas paredes, colocaram tantos feixinhos de alfazema, amarrado com fitinhas coloridas dando vida e dignidade àquela miséria, perfume à tanta solidao.
O retrato do casamento estava pendurado na frente da cama e Maria rezava todas as noites que ele voltasse, ela perdoava.
O homem sem nome nao dava noticias. As poucas vezes que ela soube que ele estava vivo, teve que ir até à casa da sogra que maleducadamente a despachava com um seco 'tudo bem, ele esta' para voltar'. Nem uma carta, nem uma ajuda para o enxoval da criança, nada de nada.
O menino nasceu em casa, nas maos da velha parteira e, apesar de ser mirradinho, chorou um choro estridente e lungo, agarrando-se aos peitos enormes de Maria logo depois de ter sido lavado e bem enfaixado. Ela chorou de dor e alegria, mas o vazio do abandono nao lhe dava sossego.
O tempo passava e a criança crescia pouco, tinha uma enorme barriga e os olhos fundos denunciavam que alguma coisa nao estava bem. Ela estava morta de cansaço: devia trabalhar duro nos campos e levar com ela o filho, o risco de deixa-lo em casa com o irmao tao doente era grande, o menino era muito fraco. Alem disso, o bichinho tinha voltado a ter uma forte desinteria, sem motivo aparente, e ela sabia que seria facil que morresse de desidrataçao naquelas condiçoes.
Decidiu ir ao encontro do seu marido mas nao disse nada a ninguém, tinha medo que procurassem impedir ou avisa-lo da sua chegada. Procurou o endereço de um parente e pediu que alguém lesse, fixando bem na memoria as palavras e os numeros, arrumou uma pequena malinha e, com o pirralho nos braços, deixou pra' tras o vilarejo partindo para a nova vida.
A viagem foi um desconforto mas teve ajuda dos conterraneos, todos à procura da sobrevencia na terra da neblina e do grande frio. Conseguiu chegar na casa dos parentes e logo soube que seu marido tinha tido uma grande sorte, encontrou um trabalho que rendeva muito bem (se perguntou onde estaria esse dinheiro) e que eles a levariam no cortiço onde ele morava, junto a outros desesperados mas antes deveriam dizer uma coisa... Maria, te prepare pois o inominavel mudou muito... ele nunca viu tanto dinheiro junto, ele bebe, ele vive no cassino, ele joga, ele vai com as mulheres, ele perdeu a cabeça...
Depois do mal-estar, Maria pensou: ele vai mudar; agora eu estou aqui.
A reaçao do marido foi uma alegria imensa ao ve-la com o filho nos braços. Era so' porque os parentes estavam ali, na frente dos outros, é tao simpatico! Ele nao bateu nela porque ja' tinha entendido como era a vida no cortiço - as mulheres se protegiam umas com as outras, mesmo se de vez em quando brigavam por causa dos filhos ou pela fila no unico banheiro que estava sempre ocupado, ele pensava que ainda tinha um nome a zelar e, com o comportamento herdado de sua mae, se sentia mesmo superior, que estava passando um momento indigesto que nao duraria muito.
Como em todos os casamentos, a convivencia fez Maria descobrir coisas que nem sonhava em imaginar. A coisa que ela mais detestava era a prepotencia que saia de todos os poros daquele involucro assim tao belo. Ele era mesmo uma brincadeira de mau gosto da mae-natureza, dentro daquele Adonis reinava mesmo um ser diabolico, capaz de fazer maldades a sangue frio - como no dia que matou a cachorra jogando-a do alto do barranco, para morrer afogada no rio gelado que corria embaixo, somente porque a bichinha estava gravida. O pavor tomou conta da casa, mas ele estava contente porque assim ela entendia quem é que era o patrao.
Fizeram ainda outros tres filhos. A femea por ultimo. Ele nao modificou o seu modo de viver, mas a familia sobrevivia graças à luz que saìa do ser que é Maria. Por anos o homem entrava em casa somente para comer, sujar, comandar e dormir. Os filhos cresciam com medo e Maria teve que trabalhar muito dentro e fora de casa para poder manter a dignidade dentro de sua casa. Ele de vez em quando batia nela: quando ela comprava um vestido novo para um dos filhos ou se os levava no parque de diversoes, mas ela nao sentia mais nada, tinha somente aquele oco dentro como se nao existissem nem mais os orgaos, se sentia cheia somente quando de noite, antes de dormir, deitava com os filhos na cama de casal e sentia que todos os quatro respiravam e sonhavam.
No cortiço as pessoas estavam somente enquanto nao se ajeitavam, todos queriam ter uma casinha e depois de alguns anos de sacrificio, iam embora deixando lugar a outros e assim por diante. Maria estava ainda ali e nao queria que os filhos crescessem naquele ambiente, com gente que muitas vezes era melhor nem conhecer. A soluçao seria trabalhar durante todo o dia, ter dinheiro suficiente para poder inscrever-se nas 'casas populares', com a ajuda do Governo ela conseguiria ao menos um apartamentinho e sairiam daquele lugar. Com o coraçao partido, colocou a menina e os dois meninos mais novos no orfanato, nao poderia mais trabalhar meio-expediente e era um perigo quatro crianças sozinhas todo o dia em casa. O mais velho ia à escola de manha e, durante toda a tarde deveria estar trancado à chave dentro de casa, uma vizinha o trancaria todos os dias. Porque deixar o menino trancado? Era terrivel, o infeliz, brigava com todos os garotos do cortiço e mesmo magrinho e pequeno, tinha tanta raiva dentro que conseguia bater até em dois ao mesmo tempo. O nariz se era ja' quebrado mais de uma vez e o garoto parecia um cachorro rosnento, tanto que os professores o deixavam ajoelhado em cima dos caroços de milho quase todo dia.
Ele via o fogo sair das ventas do garoto quando ele via o pai e tinha muito receio que, mais cedo ou mais tarde, aconteceria a explosao.
Finalmente, depois de um longo tempo economizando, ela conseguiu ser chamada pela Prefeitura para a entrega da casa. O mais velho ja' tinha 16 anos e Maria nao cabia em si de satisfaçao, começando logo a arrumar as caixas para a mudança. Foi visitar o apartamentinho que pra' ela era mesmo um palacio com dois quartos e um banheiro todinho para ela... aqui eu boto isso, o fogao aqui, oh, tem aquecimento! nunca mais ter que rachar lenha para esquentar a casa... nunca mais passar horar limpando um chao que de tao velho nao se via nem de que cor fosse... sou rica! sou feliz! ai meu Deus, obrigado. Toda contente, foi assinar o contrato. Assinar? ela sabe assinar o nome mas teria que ler primeiro e era analfabeta! A funcionaria fechou o livro e disse que de qualquer jeito tinha que vir o marido, nao deveria ter vindo sozinha mesmo se soubesse escrever, eles eram casados. Dia seguinte, voltam os dois e finalmente tudo resolvido, a mudança sera' daqui a duas semanas.
Os preparativos ferviam e os filhos, ja' fora do orfanato, embalavam e brincavam, alguns tapas voaram pois ela nao admitia levezas num momento tao importante. Até o marido era estranhamente tao contente! Talvez agora as coisas realmente serao melhores.
Alguns dias antes de mudar, ela pediu férias do trabalho e, chegando à casa, encontrou o marido com tantos papéis em cima da mesa e um ar preocupado: teriam que adiar a mudança, surgiram problemas e voce tem que assinar novamente toda essa papelada para podermos mudar. Oh, que chato! Ta' bom, assino e voce leva logo, ta'?
Pronto, estava concluìda a venda da casa. Agora ele podia pagar a dìvida no cassino que ja' nao sabia mais de onde tirar dinheiro pra' pagar o agiota. Por nao poder bater no padre, o filho mais velho rachou a cabeça no tronco da arvore e foi parar no hospital. Passou oito anos sem falar com o pai.
Assim, eles continuaram no cortiço. Assim, Maria descobriu que nao era mais capaz de chorar e, assim, teve que esperar outros dois longos anos para poder mudar dali com a ajuda dos filhos.

Valeu a pena, Maria?
Sim, eu fiz o meu dever de mulher e mae. Sou feliz porque Deus me quer bem e vou morrer em paz. A vida passou e eu sei que nao plantei erva daninha, nao deixo recordaçoes ruins pros meus filhos e isso é o que me importa.

Maria me contou esta estoria mais de uma vez. Uma dessas vezes, o marido estava presente mas nao mexeu nem um so' musculo da sua face tao nobre. Eles estao juntos até hoje, ela suportou tudo com a cabeça erguida e um sorriso luminoso. Ele ficou muito doente alguns anos atras, quase morreu por um cancer na bexiga e ela passou todo o tempo da doença dia e noite do lado dele, cuidando, limpando, confortando, impedindo que os filhos o levassem para uma clinica, dizendo que ele nao deveria ficar longe da familia. Ele sarou mas continua aprontando: tem uma capacidade fora do normal em meter-se em confusoes. Ela fala, ele manda ela calar a boca - e ela cala. Os netos correm pela casa e ele, sentado na 'sua' poltrona, diz:
- "meninas, vem aqui que o vovoh vai contar uma coisa; voces sabiam que descendem de um grande nobre?"...

E eu nunca mais conto um causo tao comprido.


Joga farofa no ventilador:




Senhora das nuvens de chumbo
Senhora do mundo
Dentro de mim
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom, tempo ruim


Epahei!

Joga farofa no ventilador:



Foto: www.pianetacalabria.com


Um verdadeiro episodio de uma mulher na Calabria dos anos 50, mas que poderia também ter sido no Brasil ou qualquer outro lugar de cultura latina, no mesmo periodo:

Maria era uma moça de 18 anos e, até aquele momento, sua existencia tinha sido so' trabalho duro, fome e sofrimento. Desde pequena, as pesadas responsabilidades da vida no campo fizeram ela amadurecer mais depressa: o plantio e a colheita da azeitona, a roupa lavada na beira do rio, as maos estragadas de tanto torcer as fibras vegetais, até que se transformassem nos grossos fios que ela usava para tecer aqueles panos rudes que a familia usava para se vestir. Era analfabeta mas honesta e de principios solidos, sabia que a idade de casar ja' estava passando - sua irma, com somente 16 anos ja' tinha dois filhos, mas ela teve o azar de achar-se em idade casadoura bem no meio da guerra, quando os moços do vilarejo tinham ido combater ou se escondiam nas montanhas, fugindo da guerra.
Porém tinha aquele rapaz. O mais lindo que ela havia visto nas redondezas e que tumultuava seus sonhos desde menina. Ela nao tinha esperanças, apesar dos olhares insistentes que ele lançava toda vez que se encontravam. Ela sabia que deveria abaixar os olhos quando ele passava, mas uma olhadinha dava sempre; ele sabia que nao poderia aproximar-se, nem falar com ela: significaria um compromisso por toda a vida.
O rapaz era pobre como ela, mas vinha de uma familia soberba. Sua mae se achava a dona da cocada preta, ja' que havia casado com um descendente de uma linhagem nobre. Peraì, vam com calma: o grande castelo em ruìnas que abraçava o paesino no alto da montanha, nos tempos feudais pertencia a um nobre que era patrao de todas as terras a perder de vista, como convém a todo dono de castelo. Sabemos que, além dos rios e plantaçoes, o feudo compreendia também tudo aquilo que caminhava e respirava sobre aquelas terras - bestas e seres humanos, no mesmo nìvel, sem distinçao. O senhor tinha poder de vida e de morte e, nas horas de folga, pertencia à ele também a honra de todas as moçoilas que ali viviam. Assim, uma trisavò daquele lindo rapaz, serviu a acalmar o nobilissimo nobre em uma das tantas tardes de tédio. Naturalmente, o fruto da bestialidade se chama bastardo - mas isso nao tinha nenhuma importancia, atravessando geraçoes essa descendencia ilegal foi louvada e ainda agora, servia pra' menosprezar os habitantes do vilarejo, que nao podiam ver a dita cuja passear pela cidade com os sapatos remendados como todos os outros, mas com o nariz empinado tipico de quem caga cheiroso.
Uma tarde, Maria voltava do rio e encontra o garanhao. Se olharam e sem muitos leros-leros, se entregaram ao proibido na velha casinha abandonada que servia para guardar a lenha. Depois de tantos uis, ela caiu em si e se deu conta que estava desonrada, mas uma alegria infinita iluminou o seu coraçaozinho: agora ele era seu para sempre! Ele, depois de esvaziar todo o pesa que lhe oprimia, olhou para ela de uma maneira diferente, frio e quase brusco lhe disse: nao falar pra' ninguém! E sumiu, deixando a mocinha ainda com a velha saia enrolada nas maos.
E agora? O que fazer? Talvez ele precisaria de um pouco de tempo pra' realizar o que tinham feito, talvez ele gostaria que os outros pensassem que ela fosse ainda virgem quando se casariam, talvez ele mesmo queria falar com a sua familia e assim ninguém poderia impedir que eles ficassem juntos.
Ela ficou calada. Ele desapareceu.
Mas... como sempre acontece nesses casos, no mes seguinte 'as coisas' de Maria nao vieram. Mamma mia, como é possivel que aconteça sempre assim? Uma trepadinha de nada, uma ùnica transadinha que deixou so' saudade, modificou a vida da coitada para sempre. Naquele tempo, as maes, tias e vizinhas eram vigilantes: a menstruaçao das meninas eram controladas como o tempo da colheita. Impossivel esconder. Passados os dias que se podem contar como atraso, a mae de Maria saiu de casa correndo e, enquanto se auto-flagelava, batendo forte no peito e arrancando os cabelos em sinal de desesperaçao, parou no meio da pracinha gritando: "mia fia! desonrada é! disgraziato, quem é! eu mato! eu mato!". Pronto, todos sabiam. Ela nao poderia mais ir à missa, nem colher as azeitonas junto com as amigas cantando pra' afugentar o cansaço, nem participar à festa da colheita e dançar na roda das mulheres. Tava morta pro mundo, se ele nao a quizesse ela nao casaria com mais ninguém. Seu destino seria somente os dedos apontados enquanto ela passava, os risinhos, as chacotas. Duas soluçoes tinham naquele caso: a fuga ou o suicidio. Mas ela queria ele, o mascalzone.
O pai de Maria tinha morrido e seu unico irmao voltou da guerra com tuberculose, estava so' esperando morrer. Quando acontecem essas desgraças, cabe aos machos da familia obrigar o deflorador a reparar o dano. Maria, depois de uns bons tabefes, teve que dizer quem tinha sido, provocando novo espetaculo de auto-flagelaçao em sua mae, acompanhado dos gritos de uma velha tia esclerosada que, sentada na cadeira ensebada da sala, nao entendia nada mas urlava do mesmo jeito.
A noticia nao demorou a chegar na casa dos 'nobres' e, naturalmente provocou grande dissabor. A mae nao aceitaria jamais que o seu filho mais jovem, tao lindo e nobre, fosse obrigado a casar com uma camponesa com as unhas sujas de terra, muito menos permitir que nascesse uma criança com o sangue daquela gentalha. Passaram muito tempo concebendo planos. E chegou o momento de agir:
O primeiro plano, colocaram em açao logo na manha seguinte: espalharam pelo vilarejo que Maria se concedeva amiùde aos rapazes de passagem, duvidavam que o filho fosse do seu pobre, inocente menino, que nao se abaixaria nunca a tocar uma puttana assim dsavergonhada. Foi tudo por agua abaixo. Os 'nobres' nao participavam do cotidiano dos plebeus, nao contavam com a sinceridade das pessoas simples que, apesar de ignorantes, amavam a verdade e defenderam com unhas e dentes a honestidade moral de Maria, que conheciam muito bem e sabiam que era ìntegra.
O segundo plano nao poderia falhar e ja' que nao podiam contar com o apoio das pessoas do vilarejo, foram em outro lugar chamar
alguns rapazes sem eira nem beira que em troca de alguns litros de azeite e uns sacos de farinha de trigo (mercadoria preciosa em tempos de fome), deveriam entrar na casa de Maria e, em dois ou tres, beija-la e rasgar os seus vestidos, simulando uma orgia ou qualquer coisa que o valha. Naquele momento, oh, que coincidencia! Os nobres estavam mesmo vindo ali pra' negociar o matrimonio... mas agora nao se pode fazer mais nada, ela nao presta mesmo e esta é a prova. O tam-tam da safadeza correria aos quatro ventos em tempo recorde.
A desonra maior dentro da sua ja' infeliz condiçao, ja' que com o flagrante o rapazinho estaria definitivamente livre de qualquer compromisso matrimonial. Assim eram as leis: ele poderia recusar a uniao com uma mulher que pertenceu a outro(s), nao importando se foi usada violencia ou nao; as pessoas nao poderiam falar nada. Além do mais, ele ja havia comprado a passagem de trem, que o levaria ao Norte, ganhar dinheiro e casar com uma moça mais condizente com a sua nobre condiçao.
Mas Deus é grande e os homens idiotas. Invés de esperar o momento oportuno, por exemplo quando ela estivesse saindo empurra-la novamente dentro de casa, os imbecis bateram na porta. Maria estava sozinha com o irmao doente na cama, olhou pela fresta da janela e, quando viu aquelas caras desconhecidas, nao abriu a porta. A familia caga-cheiroso ficou escondida la' na esquina, esperando em vao o final feliz.
Maria entendeu tudo, quando uma hora depois o desgraçado apareceu dizendo que tinha visto sairem tres rapazes da casa dela. Ultima tentativa de se desembaraçar dela e daquela coisa que ela carregava na barriga.

(continua amanha)


Joga farofa no ventilador:

Terça-feira, Dezembro 02, 2003


O teclado reapareceu e fez de conta que nao tinha sumido. Nenhuma explicaçao.
O homem-rato ainda nao voltou.

Sessao flash-back - 1991:


Foto: www.pianetacalabria.com

Depois de dois meses que eu cheguei aqui, fomos na Calabria em férias. Eu nao sabia que existia um abismo de mentalidade entre o Norte e o Sul da Italia, entre a Italia e o Rio de Janeiro, entre a cabeça do meu marido e a minha. Foi assim que descobri:

Durante a viagem, meu futuro marido era muito nervoso e preocupado com a reaçao dos familiares e de como iriam nos receber, ja' que ele foi o primeiro neto e sobrinho que ousou se separar e refazer uma nova vida. Eu até ri de toda essa preocupaçao, afinal nao tinha nada de estranho! Mas ao mesmo tempo me lembrei que deveria conhecer também o meu sogro nesta viagem, parece incrivel mas mesmo morando a somente 8 quilometros dos pais dele, ele ainda nao tinha vindo me conhecer nem permitido a minha ida na casa dele. O motivo, pra' mim, era um mistério.
Chegamos. O lugar era um vilarejo que parecia esculpido na montanha com casas de pedras dali do lugar, todas coladas umas às outras. Na pracinha principal, no unico bar em frente ao ponto de onibus, o radinho aceso tocava musica regional; fora, no meio da praça, a fonte seca com uma bica tristonha que pingava gotinhas de agua enferrujada e, aqui e ali, alguns velhinhos de olhos cinzentos passeavam à esmo. Era um lugar fora do tempo e também um pouco angustiante. Alguém me disse que o paesino se esvaziou depois da guerra, como tantos outros naquela época, porque com a fome e a carestia todas as pessoas que puderam foram embora para o Norte, em busca de fortuna e esperança de uma vida melhor. Ficaram os velhos, os doentes, as viuvas e as solteironas - gente que por um motivo ou outro nao puderam ou quizeram ir embora. Nos meses de verao, tantos voltavam para rever os parentes e ficava tudo cheio. Era verao, mas o povaréu tinha descido pro mar, ainda era cedo pra' ter movimento.
Deveriamos ficar hospedados na casa de uma tia, mas logo surgiu o primeiro problema: eu nao poderia dormir na mesma CASA que ele dormiria, nao ficava bem. Ja' começava a me irritar tanta (falsa)moral e bom costume, pois todos sabiam que moravamos na mesma casa, mas para nao dar o que falar teriamos que ficar separados - como se eu nao soubesse que os cochichos corriam de boca em boca, que nos viviamos juntos sem casar... e nao entrava na minha cabeça toda aquela preocupaçao em que ele me visse de camisola ou de roupao. Depois de uma reuniao de familia, muito gesticulada, o grande problema foi resolvido: eu e a Juli dormiriamos na casa de uma tia viùva, desde que seu ùnico filho solteiro (grande perigo para o meu aparelho genital) concordasse em ficar por uns dias na casa da avo', coisa que aconteceu com os devidos bicos e muxoxos da parte do coitado.
A familia nos recebeu bem. Me sentia observada como se fosse uma marciana, mas eram gentis e curiosos em saber como fosse a vida num lugar que eles tiveram que procurar no mapa pra' ter uma idéia onde era. Muito generosos com a comida e o vinho, faziam eu comer até quase estourar e depois diziam: 'voce nao come nada'...
Depois de quase uma semana de intensas negociaçoes, meu sogro concordou em me conhecer. Meu marido foi obrigado a explicar que o motivo era mesmo o que a essa altura eu ja' imaginava: ele se recusava a aceitar a vergonha de uma separaçao na familia, pior ainda que seu filho se casasse de novo e, maior desgraça, com uma estrangeira!!! Ele me olhou por uns tres segundos e deixou minha mao estendida no ar. Ainda hoje o nosso relacionamento se resume a 'bom dia' e 'até logo' - quando ele se digna a responder. Ele diz que é um homem de uma so' palavra, que nao muda NUNCA de opiniao, como se diz aqui: un'uomo di un solo pezzo (um homem de um so' pedaço), como posso pretender que ele se interesse de uma mulher aos pedaços como eu? Por causa disso, quando vejo ele despontar no meu horizonte, começo a cantar a sua colona sonora: 'Eu prefiro seeeeeer/ essa metamorfose ambulantchi...'. Sem duvida, ele também pensa que sou maluca, mas eu nem ligo: sua opiniao ja' estava formada mesmo antes de me conhecer.

Abro parentesis pra' contar uma que aconteceu outro dia. Quando eu tirei a banheira de casa, surgiu um problema hidraulico que meu-marido-faz-tudo nao conseguia resolver. Chamou o velho para dar uns conselhos e ele, pela segunda ou terceira vez em todos esses anos, entrou na minha casa. O problema era sério e demorou toda a manha para ser resolvido obrigando o distinto senhor a permanecer mais tempo que o previsto. De repente ele largou tudo, desceu, entrou no carro e foi embora sem dar maiores explicaçoes. Nos pensamos que tinha ido comprar alguma coisa, mas depois de uns dez minutos voltou de maos vazias e continuou a trabalhar como se nada fosse. Ao mesmo tempo, telefona a minha sogra: "Meu marido esta aih?" Sim. "Eu hein, ele veio aqui, foi no banheiro, fez xixi e saiu de novo sem falar nada!".
Como ele é um homem de uma unica opiniao, mesmo se estava dentro
de um banheiro (so' que era o meu), preferiu nao se 'abaixar' a usar o meu vaso e me dar motivo de pensar que estava me dando "confidenza" (intimidade). Ele nao sabe, mas naquele dia eu e minha sogra chamamos ele de babaca e rimos do mijo dele.

Voltando à viagem: tudo corria bem desde que eu obedecesse às regras que meu marido devagarzinho explicava. Eles me viam como a-selvagem-com-o-osso-no-nariz e, de tao convintos que eu fosse assim, nao perceberam que eu é que me sentia como se fosse entrada no tunel do tempo e caido na era medieval.
Eu nao podia chupar chicletes, era coisa de mulher vulgar. Eu nao podia entrar em nenhum lugar publico sozinha: era coisa de vagabunda. Falar com um estranho? Nem pensar.
O meu biquini foi assunto de comadre por muitos dias e meu marido vivia pelos cantos puto da vida porque eu comecei a desobedecer as coisas absurdas, chupando chiclete dia e noite e usando o maioh inteiro com a bunda de fora, ja' que ele tinha me pedido pra' nao colocar mais o biquini com a mesma bunda de fora (ele virou alvo de gozaçao dos parentes machos, que duvidavam da sua capacidade de manter no cabresto uma 'assim'). As primas nao vinham mais à praia comigo, depois que eu ri dos suvacos cabeludos e eu andava pra' cima e pra' baixo com a minha sogra, que tentava explicar que a mentalidade deles era assim porque era gente simples, que nunca tinha botado pé fora dalì e tinham dificuldade em aceitar essas modernidades que viam pela televisao.
Ora, a Calabria é um lugar turistico. Todos os anos vao ali centenas de pessoas do mundo inteiro atraidos pela beleza do lugar, nao é possivel que eles nao tivessem nunca visto uma estrangeira. O problema era um so': a estrangeira entraria para a familia deles e deveria se comportar como pensavam eles.
Tenho dito.

Todo dia meu marido ficava com raiva por alguma coisa que eu fazia. Eram coisas tao bobas que nem me lembro mais, lembro que perguntei pra' ele se podia respirar. Ficou puto de novo.
Aih eu pensei: eu nao estou fazendo nada demais, nao estou desrespeitando nem ele nem sua familia, sera' que é maluco? Ja' que ele fica com raiva de tudo eu vou me comportar como tenho vontade, ao menos eu me divirto. E naquele mesmo dia entrei no bar com a Juli e bebemos coca-cola. Ele nao falou nada mas nao quiz ir pra' praia de tarde. Eu nao podia ir sozinha. Eu perdi uma tarde de praia. Começou a guerra.

Fomos a uma festa sensacional. Era em outro lugarejo um pouco mais adiantado: a praça principal era enorme e um palanque cheio de bandeirinhas prometia que o arrasta-pé ia ser bom. Meu marido ainda nao tinha se emburrado nem mesmo uma vez nas ultimas tres horas. Me deu até um beijinho em publico (troppo vinho) e eu estava toda boba com tanta ousadia de uma vez so'.
Eu comi de todas as barraquinhas todas aquelas coisas estranhas que nunca tinha visto, compramos um balao em forma de Dumbo pra' Juliana e esperavamos o espetaculo de fogos (italiano tem mania de fogos) que estava marcado para meia noite. De repente a banda começou a tocar e foi um corre-corre pra' pegar lugar na pista, eu comecei a correr também e a puxar ele pra' dançar, minha sogra pegou logo a Juliana no colo enquanto ele ficava ali parado como um pau seco dizendo que nao gostava de dançar, que ele nao dançaria nunca, mas se eu fazia taaaanta questao de rebolar, poderia ir com a minha sogra ou com alguma prima.

Acabei com a festa dele. A Pomba Gira que estava escondida dentro da minha barriga veio pra' fora esplendorosa: me joguei no meio da pista a dançar sozinha, botando pra' fora todo aquele azedume que fica debaixo da lingua quando me sinto oprimida ou mal-entendida. Nao tava nem ligando que as pessoas me olhavam ou que ele ja' tinha desaparecido. Que va' embora pra' sempre. Eu nao quero mais casar com voce.

Foi no baile que eu vi pela primeira vez uma coisa engraçada: homem dançando com homem e mulher com mulher. Tantos. De todas as idades. Depois eu soube que o costume vinha, como sempre, por uma questao de moralidade: ficou ainda enraizado desde a época que se um homem falasse ou tocasse uma mulher, era obrigado a se casar. Isso nao faz muito tempo nao, trinta anos atras ainda era assim.

Meu marido sumiu do baile. Quando apareceu, perdeu o poder da palavra outra vez. Recomeçou a guerra e acabaram as férias.
Antes que voces me perguntem: eu nao vim embora porque gostava dele. Alguém aih ja' se apaixonou?
Podem começar a atirar as pedras! Principalmente aqueles com o telhado de vidro.

Joga farofa no ventilador:



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