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Segunda-feira, Outubro 24, 2005
Pessoas, estou doente. Peguei a tal da influenza que está arrasando por aqui esses dias. Comecei na quinta-feira com uma forte dor de cabeça e já na sexta a garganta inflamou, os músculos doíam e a febre começou a perturbar mas fui pro hospital assim mesmo, pois cada dia que falto tenho que recuperar com um sábado. Ontem, a febre baixou e comecei a tossir e lá fui eu de novo hoje de manhã com uma vontade "daquelas". Trabalhei de máscara o tempo inteiro com medo de dar um ataque de tosse e disparar uma "castanha" na cara de algum paciente, mas ao meio-dia a febre voltou e começou tudo de novo. Amanhã eu não vou. O meu trabalho na lavanderia está parado. Eu estou amarela e descabelada. Vou comer uma latinha de Vick's Vaporub.
Esclarecendo:
A foto aí em baixo é a Juliana...
Allan, a Pipoca é femêa mas levanta a perna quando faz xixi!
posted by Faro-fera
11:00 PM
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Quarta-feira, Outubro 12, 2005
Você prá mim foi o sol...
posted by Faro-fera
11:04 PM
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Finalmente amanhã o turno é de tarde. Hoje foi o dia que trabalhei menos, deu até prá sentar na cozinha e tomar um café em paz. A relação com as outras pessoas vai muito bem, obrigado.
Talvez vocês achem estranho porque eu continuo falando neste assunto mas a minha preocupação se deve ao fato de que eu fiquei muito tempo "na caverna", ou seja, passei 15 anos sem me relacionar com as pessoas da maneira que estava acostumada porque tinha um contato muito superficial, somente por causa do meu trabalho, feito de "bom dia" e "muito obrigado" com os clientes. Eu conversava somente com o meu marido, quando conseguíamos ficar 24 horas sem brigar mas os papinhos essenciais com amigos ou o famoso jogar abobrinha fora, nunca existiu. Eu sempre fui muito extrovertida e este comportamento aqui não cabia; assim, fui obrigada a adaptar-me à nova situação com a desvantagem que esta agressão à minha personalidade me transformasse em uma pessoa insegura no relacionamento com os outros.
É muito difícil nessas situações encontrar uma pessoa que te satisfaça até a nível de papo, nunca rolou "aquela" alquimia de ter uma prazeirosa conversação (não porque eu seja exigente, quem lê meu blog frequentemente pode até dizer que me conhece, me abro mais aqui do que conversando com as pessoas) mas somente porque não tenho nunca tempo de entrar numa relação de amizade por causa da vida corrida que se faz aqui.
Quando voltei a estudar foi que percebi a importância da famosa frase "o homem é um ser social", já que veio à tona todas essas coisas que eu, intimamente, já sabia mas não a que nível...
Bom, lutar contra a insegurança é uma questão de sobrevivência e é isto que estou tentando dizer quando falo da minha preocupação no relacionamento com as pessoas do trabalho. Notem que eu não tenho a mínima preocupação em "ser aceita" mas sim de estar bem com as pessoas com o andar do tempo, de achar um equilíbrio, já que a minha situação de insegurança me leva a não saber como reagir quando surge um problema, de calar quando deveria falar ou de falar quando seria melhor o silêncio.
Mas isto são só divagações, andiamo al sodo.
Estou me excitando gradualmente com a nova experiência. Sei que ainda é cedo prá falar, estou em rodagem, mas resolvi ver a coisa com os meus olhos tentando não me deixar influenciar das opiniões das outras meninas que estranhamente continuam a sublinhar as coisas negativas quando nos encontramos no vestiário no final do expediente. Acho que é somente por uma questão de maturidade (finalmente serve prá alguma coisa os anos vividos), porque vejo que com as outras que se aproximam da minha idade pensam mais ou menos igual a mim. Está sendo muito bom também estar perto da garota que faz o mesmo horário que eu: nos damos força mútua, ela tem um ótimo caráter e formamos mesmo uma bela dupla: já de manhã quando ela passa prá me pegar começamos a rir das nossas duas caras de bunda às cinco da madrugada.
Os pacientes merecem um capítulo à parte. Não se pode ter o mesmo tipo de atitude que se tem nos asilos de velhinhos, de aproximação diária. O rodízio é impressionante, ainda mais agora com as novas técnicas que não exigem um longo período de internação. O reparto é cheio de gente operada na cabeça (ué, é neuro-cirurgia!) mas o mais impressionante é a quantidade de jovens em estado de coma, vítimas de acidentes de trânsito. Quase todo dia entra um.
Uma tristeza profunda ver em cada um daqueles meninos um filho que poderia ser meu, mais ainda os olhos daquelas mães que olham para seus filhos como Maria olhando Cristo na cruz. Como achar palavras para consolar?
E assim é.
posted by Faro-fera
10:11 PM
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PIPOCA
(foto: Juliana com o celular)
posted by Faro-fera
10:11 PM
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Terça-feira, Outubro 11, 2005
Então foi assim: domingo fui dormir com umas borboletas que voavam no meu estomago, tudo porque entrei numa neura que iria perder a hora de ir pro hospital e chegar atrasada ou, pior, dormir direto até as dez da manhã, já que na segunda feira a loja é fechada e ninguém acorda cedo. Coloquei o despertador no meu celular e naquele da Juliana e fui prá cama cedo mas nada de conseguir pegar no sono. Aí meu marido me sugeriu de tomar meio comprimido de melatonina e ficou uns vinte minutos me perturbando com o comprimido na mão até que resolvi tomar. Não lembro mais nada, só sei que acordei às 3.15 da manhã e não dormi mais.
Às 5 e 15, na maior escuridão, saí de casa e fiquei na porta esperando a minha amiga Cristiana que passava prá me pegar e enquanto estava ali, vi o movimento da manhã que tinha na rua: o caminhão que recolhia as garrafas, os rapazes que entregavam os jornais na banca do lado da minha casa, o barulho das cadeiras sendo arrumadas no bar em frente ainda fechado e os carros que passavam já em alta velocidade com todos os estressados dentro, indo trabalhar. Mas o que mais me chamou a atenção foram os dois africanos de bicicleta. O primeiro passou pedalando com energia uma bicicleta que fazia um barulho de corrente sem óleo, rrein-rrein-rrein... e eu só vi ele quando estava bem perto de mim: preto, vestido de preto, na escuridão. Me deu vontade de gritar prá ele abrir a boca prá fazer ver os dentes, assim não arriscava de ser atropelado. Puxa, quem sabe quantos quilometros aquele ali ainda teria que fazer prá chegar no trabalho, enfrentando o frio da manhã (e olha que ontem ainda fazia pouco frio, imaginem quando for abaixo de zero, com neve ou chuva e vento gelados) prá ir trabalhar e ganhar qualquer miséria que nem dá prá comprar um carrinho, lembrem-se que aqui todo mundo tem carro e os onibus so começam a circular depois das 6 da manhã.
Eu já estava preocupada com a demora da minha amiga e ainda mal-humorada por ter dormido mal quando passou o segundo. Esse, pedalava devagar, uma bicicleta velha igual ao outro mas com uma mão só no guidon; só depois que eu vi ele de costas, debaixo da luz do poste, notei que só tinha um braço.
Naquele momento me lembrei que ainda tenho muito que aprender da vida.
Chegamos no hospital ainda em tempo de assistir a troca de turno. A recepção foi....... não teve. Ninguém nem olhou prá gente e nós ficamos ali como dois espantalhos no meio da sala, sem nem lugar prá sentar e sem poder falar prá não interromper. Minha amiga começou a me dar chutes, em pé mesmo, cada vez que falava uma enfermeira que ela logo catalogou como antipática ("quella lì mi sta sul culo") e eu cada vez que recebia um chute ou cutucão dava um passinho pro lado, pensando que se alguém percebesse a nossa impaciência, nos botasse prá fora. Quando acabou a reunião, cada uma disse o que iria fazer e começaram a sair da sala! Eu corri prá porta e falei: "nós somos as novas estagistas, não nos apresentamos antes prá não interromper, alguém pode dizer o que temos que fazer?". A enfermeira chamou outras duas e falou para cada uma de nós ficarmos com elas. Apresentação, coisa e tal, fomos nos enturmando. Eu era completamente ignorante da rotina do hospital mas não encontrei dificuldades (por enquanto) e prá nossa sorte(?) foi um daqueles dias mais movimentados do que o normal, mas no final deu tudo certo.
Ao contrario do que pensávamos, as enfermeiras e outras operadoras nos trataram muito bem, tiveram paciência com as nossas perguntas e até agora eu não tenho o que falar de negativo.
Nesses dois dias, vi tantas coisas, aprendi um pouco mais e depois falo de como estou reagindo com o contato direto com os pacientes.
Estou já trocando as bolas de sono, não tenho mais tempo prá nada, mas tinha que vir aqui hoje escrever.
posted by Faro-fera
10:47 PM
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Quarta-feira, Outubro 05, 2005
Pois é, passei estes dias com a droga da dor na coluna de novo. Se acreditasse, podia até dizer que é uruca. Invés, é somente porque não tomo vergonha e não faço uns exercícios prá me esticar um pouquinho quando exagero no trabalho e fico muito tempo em pé e na mesma posição. Na segunda-feira de noite, bastou que me abaixasse brincando com a Pipoca que me senti como um pedaço de graveto que quebrava enquanto eu tentava me levantar. Paciência, depois passa.
Nem fui prá escola ontem por causa da dor e também porque tive que ir no médico pegar um certificado de boa saúde para apresentar no estágio. Acabei perdendo uma prova de Medicina Geral mas fiz hoje, depois do maior bafafá na escola entre o professor de Medicina e as duas enfermeiras que tinham que dar aula hoje. O pobrezinho do professor veio na escola somente para dar a prova prá mim e outras 5 que faltaram ontem à lição dele e nós tínhamos combinado na hora do intervalo prá não incomodar as duas mas não adiantou nada: o intervalo atrasou e ele acabou entrando no horário das outras por dez minutos. As duas ficaram furiosas, a turma que já está de saco cheio ficou ainda mais nervosa e eu fiquei só imaginando como seria o mundo se as pessoas fossem mais tolerantes...
Mesmo parecendo uma bruxa corcunda, fui assim mesmo pro jantar da turma ontem de noite. Já estava até sem graça porque nunca vou quando tem reunião prá pizza ou qualquer outra coisa. É o maior sufoco sair de noite porque geralmente trabalho até tarde quando chego da escola e sair significa atrasar tudo e fazer correndo no dia seguinte. Não consegui me divertir muito por causa da dor mas por sorte sentei perto das duas maiores faladeiras da turma, que mesmo se estivesse em forma, não iria conseguir abrir a boca mesmo. Tinha até a nova diretora, alguns professores e quando deu meia-noite, voltei prá casa, debaixo da encarnação das colegas porque o professor de Medicina me deu uma rosa (não se alarmem, tem uns 70 anos).
Maria T. sentimos a sua falta! A Giovanna P (Sociologia) perguntou por você!
(recadinho prá minha prof. de Fisioterapia que lê o blog...)
Hoje chegaram os horários de trabalho no hospital. Lógico que os três primeiros dias pequei o turno das 6 da manhã... nem quero pensar que vou ter que acordar às 4:30 e sair de casa às 5:15.
EU ODEIO ACORDAR CEDO!!!!!
Começou a esfriar. Hoje quando fui prá escola faziam 12 graus.
Quero ir pro Brasil.
posted by Faro-fera
8:47 PM
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Segunda-feira, Outubro 03, 2005
DIETROFRONT
Hoje, chegando na escola, recebi a notícia que vou mesmo pro primeiro hospital, aquele que escolhi. Vou fazer 3 semanas na neuro-cirurgia e as outras 3 no reparto geral masculino. Ao menos não vou prá urologia! Deixa eu calar a boca que podem mudar de idéia de hoje prá amanhã. Uffa!!!
Chove.
posted by Faro-fera
7:36 PM
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Domingo, Outubro 02, 2005
Depois da semana um pouco tumultuada, hoje queria repetir o que fiz domingo passado mas choveu. Ontem fez um dia lindo mas durante a noite o tempo virou e a temperatura abaixou me "obrigando" a ir dormir depois do almoço porque estava muito frio e úmido prá pensar em fazer outra coisa.
Prá dizer a verdade, a culpa do sono foi do pratão de camarão com chuchu que comi no almoço; embora meu marido insista em dizer, erroneamente, que eu não devia ter derrubado dois copos duplos de caipirinha enquanto preparava o camarão...
O pé de chuchu já começou a dar. Cada um maior do que o outro e parece que a safra vai ser melhor do que a do ano passado. Agora ele cismou de plantar quiabo também, mas eu não acredito que vingue, é muito delicado pro clima daqui. Enquanto isto temos que nos consolar com os quiabinhos mixurucas que vêm da Índia e são vendidos a preço de ouro por aqui.
Daqui a uma semana, começo a fazerr o segundo estágio. Essa semana, na escola, nos comunicaram que só tinham 10 vagas no hospital que eu tinha escolhido e nós éramos em 14. Como ninguém queria abrir mão de ir para lá, a direção mandou para o outro hospital quem morava mais perto. Logo, eu. E também outras que ficaram muito danadas mas não puderam fazer nada. Eu nem liguei muito pois estou tão a fim de acabar este curso que iria fazer estágio até no obitório, se me mandassem. Eu escolhi o outro hospital, somente porque seria uma experiência mais variada, já que este que vou agora é especializado (em reabilitação). Ao contrário do que diz a direção da escola, é mais longe da minha casa do que o outro, só que prá mim é mais comodo de chegar pois pego somente um onibus (no outro, mais perto, dois onibus), a outra vantagem é que começo uma hora mais tarde no turno da manhã (7:00), já que todo mundo sabe que eu adoooooro acordar cedo...
Estou procurando uma passadeira para me substituir durante o mês e meio de estágio. Tá difícil pois eu sou muito cri-cri com o trabalho e não quero que o negócio fique com fama de quem trabalha mal, depois de todo o sacrifício que fizemos para conseguir uma boa clientela. Depois, além de eficiente, a passadeira tem que ter outras características indispensáveis: tem que ser velha, feia e antipática.
Ou vocês acham que eu vou passar nove horas por dia fora de casa e deixar meu marido sozinho com uma jovem, bonita e simpática?
Ho, ho, ho, ho!
Aliás, essa discussão está rendendo. Imaginem que o espertinho me falou que estava pensando de chamar a filha de uma nossa vizinha prá trabalhar aqui. A garota nunca passou roupa e eu ainda teria que ensinar. Além do mais, tem 24 anos, só vive com as canjicas de fora e é africana. Como se eu não soubesse que ele tem uma queda por uma pretinha. Até uma boboca como eu desconfia de tanta vontade de ajudar.
Eu já achei a solução: vou mandar ele chamar a jararaca da ex-mulher prá ficar no meu lugar. Ela sim, tem todas as características que servem prá mim e mais uma vantagem: não vai precisar desembolsar um tostão. Com toda aquela grana que ele arrisca de pagar, ela tem mais é que trabalhar de graça no meu lugar até o fim dos seus dias!
Sonhando eu sou Feliz
Beth Carvalho
Eu sou feliz
Sonhando eu sou feliz
Eu dou um duro danado
Tô todo endividado
Tô que nem desempregado na fila do PIS
Tô sonhando mas eu sou feliz
Só assim eu sou feliz
Andam fazendo de tudo
Querendo tirar meu humor
Greve de paz, greve de amor
Se andam espalhando bomba
Um bom malandro não tomba
Dá uma volta redenda
e acorda o país
Tô sonhando mas eu sou feliz
Só assim eu sou feliz
Andam fazendo de tudo
Querendo meu pranto rolar
Chega de dor, chega de dar
Se andam cobrando na dura
Um bom malandro pendura
Jura que não paga
Juros e salva o país
Tô sonhando mas eu sou feliz
Só assim eu sou feliz
Andam fazendo de tudo
Querendo que eu fique pinel
Gente sem sal e a gente sem mel
Se andam plantando derrota
Um bom malandro que vota
Faz uma reviravolta e elege o país
posted by Faro-fera
8:51 PM
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