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Domingo, Abril 30, 2006


CLICK!






Detesto pessoas com o sorriso automático. Aquelas que quando riem, passam sem o menor pudor da uma cara antipática a um sorriso que eles pensam que é esplendido e que ninguém vai notar que é falso. Aliás, o sorrriso apaga/acende é uma das características de gente que além de serem falsas pensam que voce é burro.

Um sorriso automático é uma ofensa à minha pequena inteligência: se ela pensa que eu não vou notar que o sorriso é click/clack já quer dizer que é mais burra do que eu e, de consequência, com dois defeitos que abomino: burro que pensa que é mais inteligente que eu e falso. Será que ela não viveu o suficiente para saber que o sorriso não sai somente da boca? Que ninguém vai perceber que os olhos são vazios e inespressivos enquanto mostra os dentes como o gato de Alice?
Tá certo que ultimamente c'è poco da ridere... mas prefiro um estrondoso sorriso banguela do que uma boca de dentes brilhantes mas sem um pingo de sinceridade.




BRASILEIROS DE EXPORTAÇÄO




La Prealpina - domingo, 30/04/2006



Tradução resumida:

Brasileiro de 21 anos foi preso em flagrante dentro de um supermercado depois de roubar uma carteira com 500 euros de uma velhinha.





NÓIS SOFRE MAS NÓIS GOZA MEU BEM



Depois que desisti de ler o JB, que mudou de cara e não vale mais nada, passei a ler O Globo e até O Dia on-line.
Impressionante a rapidez com que o Rio está caindo num poço sem fundo com o aumento da violência e consequente diminuição da qualidade de vida dos habitantes, sem falar na corrupção galopante dos componentes do governo do Estado, a roubalheira e a total ineficiência em lidar com a prepotência e audácia dos bandidos que, ao meu ver, já são os donos da cidade.

O mais impressionante de tudo isto é a inércia do povo. Todo mundo reclama isolado, já convinto que não tem mais jeito...
O que é que está faltando para organizar uma manifestação de massa e mostrar que o carioca ainda tem culhões? Meia dúzia de bandidos conseguem fechar as ruas e os negócios em qualquer lugar da cidade e toda a população respeita o cobre-fogo sem nem dar um sinal de irritação? Sei lá, deve ser porque estou longe e fora da situação prá não conseguir entender como é que pode... nem falo mais nada, eu mesma fugi do Rio por não aguentar viver assediada...

Em todo caso, alguma coisa tem que ser feita. Sem esperar pelos Garotinhos nem por Jesus: um está muito ocupado em acumular poder e riqueza e o outro ainda vai demorar um tempo até decicir onde é que vai interferir, já que a escolha é difícil e não penso que o Rio seja uma sua prioridade.
Nos dias de hoje, quando Internet consegue mobilizar um mundo de gente em favor das coisas mais estapafúrdias e non-sense é estranho que ninguém ainda não começou a fazer uma corrente a favor do retorno da vida normal.

Deve ser mesmo por culpa do sol quente.





Sábado, Abril 29, 2006


Voltei



Nem deu prá escrever antes! Depois do feriado de 25 de abril, verificou-se uma invasão de clientes aqui na lavanderia e tivemos

que arregaçar as mangas logo prá não correr o risco de acumular trabalho.

Resolvemos, na ultima hora, passar o fim-de-semana na casa de um casal de amigos que largaram tudo aqui em VA e abriram um

Bed & Breakfast na província de Rimini. Aqui o site.

Passamos 3 dias como lagartixas ao sol, sem filho nem cachorro e sem pensar nos problemas que insistem em martelar. Comi,

bebi, conversei e ri muito. Estava precisando me renovar!

AQUI, as fotos.




Domingo, Abril 23, 2006


VIAAAA!!!!!



Vou ficar fora da net por alguns dias. Tudo de bom! Volto logo.



Fachada de um hotel no meu bairro




Segunda-feira, Abril 17, 2006





Lá no avarandado
Na luz do meio dia
O segredo dos teus olhos
Tanta coisa me dizia
O cabelo solto ao vento
O teu jeito de olhar
E no teu corpo moreno
A flor de maracujá
Dia de sol
Cheiro de flor
Gosto de mar, amor
A tua cor
Luz do luar
Vento que vem do mar
Roda, gira, vira o vento
Meu amor vai te levar
Bem pra lá do fim do mundo
Onde eu vou te chamar


Flor de maracujá
(João Donato ¿ Lysias Enio)







SEMPRE A TRABALHAR...


Por aqui ainda estão fabricando ovos de Páscoa!







Quinta-feira, Abril 13, 2006


QUINZE MINUTOS DE CELEBRIDADE



Estou doentíssima. Influenza que mais parece dengue.

Algum tempo atrás, as jornalistas brasileiras Yamy Trequesser e Gabriela Boing escreveram um livro delicioso chamado "De mala e Cuia" contando histórias de brasileiros no exterior.
Infelizmente, não foi publicado mas se pode baixar AQUI.
Tem um post meu também!!!








Terça-feira, Abril 11, 2006


O JOGO DAS MANIAS


O me arrolou pro jogo das manias e eu, depois de matutar uns dias, escrevo aqui as que parecem tais:


"Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para estarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blog's aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blog."


1) tenho mania de fazer bico com a boca (minha filha "pegou" isso de mim);

2) tenho mania de ler mais de um livro ao mesmo tempo e de começar a ler as revistas pelo final;

3) tenho mania de cumprimentar as pessoas e piscar o olho (o que já me causou alguns problemas aqui - neguinho pensa que eu estou "dando mole");

4) tenho mania de falar sozinha: mas somente frases sem nexo e quando estou nervosa (tipo: a bruxa veio mas esqueceu o bolo e agora o cabo vai se afogar) tem algum psicólogo por aí?;

5) tenho mania de tirar as bolinhas das roupas das pessoas (mas acho que isso é deformação profissional).




MEDO, MEDO, MEDO


Ontem ventou forte e eu não conseguia dormir com medo que a casa caísse. Lembrei da fábula dos 3 porquinhos e fiquei tranquila somente quando pensei que os muros da minha casa tem quase meio metro de espessura. Ainda bem que não me veio a paranóia que o telhado voasse!

Coisa engraçada o tal do medo. A gente nem pensa que é o medo que nos faz sobreviver, que é uma defesa tão importante quando a dor e, sem ele, a raça humana não existiria mais. O chato é que quanto mais a gente envelhece, mais vai ficando cagão. E muitas vezes te vem até raiva por não ser mais "intrépido", ousar mais, já que metade da vida já foi prás cucuias e é melhor aproveitar a outra metade (se tudo vai bem...) sem muitas reservas.

Eu tenho sempre na mente um flash de uma explosão, por isso morro de medo de escapamento gás e de caminhão que transporta inflamáveis. Nunca tive medo de altura e uma lembrança boa que tenho foi de ter feito piruetas sobre a praia da Barra num avião daqueles de publicidade, com um piloto frances muito louco, que já decolou do aeroporto de Jacarepaguá dizendo que me faria desmaiar de medo. Depois daquela experiência, fiquei até com vontade de tirar o brevê...
Mas uns anos atrás descobri que comecei a sofrer de vertigens e agora morro de medo de subir escadas até prá trocar as cortinas, de elevador panorâmico e do bondinho do Pão de Açúcar - na última vez que fui, fiquei o tempo todo olhando pro chão enquanto minha cabeça rodava do mesmo jeito.

Divaguei. Queria falar do medo que sinto ultimamente por dois clientes aqui da loja. Eu nunca tive problemas em lidar com as pessoas, mas gente com rodelas defeitosas nunca foi o meu forte e aqueles dois, com certeza, precisam de um tratamento.

CLIENTE 1 - ele tem uns 35 anos e já vem aqui há uns 5 ou 6 anos, coisa que me fez observar o progresso da sua "estranheza". Não é um cliente habitual, traz sempre a mesma calça comprida e no início, mal falava o seu nome, muito sério e caladão. De repente, ele começou a falar muito alto e, como se não bastasse, a dar umas risadinhas histéricas enquanto falava. Hoje, chega aqui e começa a gritar comigo e dar risadas muito longas e altas, como se estivesse possuído, tipo se balançando todo e fala sempre que eu tenho que ir embora da Itália, o que é que estou fazendo aqui e por que eu me casei com um italiano. No sábado, ele exagerou: deu um murro na mesa e começou a rir alto, falando sempre as mesmas coisas e perguntando com insistência: "Te assustei? Te assustei? Ha, ha, ha, ha". O pior é que é difícil que ele venha quando meu marido está na loja e, quando acontece, ele ri um pouco mas nunca faz as cenas que faz comigo.
Eu fico sem saber como me comportar e por mais que tente disfarçar ficando séria ou, como sábado, que dei uma bronca pelo murro na mesa mas ele nem escutou, abafando minha voz com suas risadas, tenho sempre a impressão que ele percebe que tenho medo. Tenho que pensar num jeito de me livrar dele (como cliente, é claro).

CLIENTE 2 - desconfiei que tinha alguma coisa de estranho quando notei que todas as vezes que ele vinha aqui (cliente habitual, uma vez por semana, metódico, sempre aos sábados entre 15:00 e 15:30) falava sempre as mesmas palavras: vim retirar tal roupa, tal roupa e tal roupa e também trazer tal roupa, tal roupa e tal roupa. Depois de meses escutando a mesma coisa, quando chegava o sábado eu já ficava com vontade de rir quando via ele atravessar a rua com seu saquinho na mão e repetia mentalmente as palavras que sabia iria escutar. Um belo dia, uma mudança drástica: ele chegou e me falou, sem mais nem menos: "sabe que minha mulher me deixou e foi embora com outro?". Eu fiquei ali parada sem saber o que dizer depois de tal confissão, insólita para um homem ainda mais italiano, mas consegui soltar um "sinto muito" que ele nem escutou pois já estava me contando com todos os detalhes como foi que aconteceu, com direito à cena que a mulher pediu para ele ir para a casa da mãe dele nos fins-de-semana pois ela não tinha lugar para encontrar com o amante.
No sábado seguinte, eu pedi pro meu marido pelamordedeus de trocar de turno comigo pois não queria que ele continuasse com o papo, mas ele contou toda a história prá ele também!
Meu marido caiu na bobeira de falar prá ele deixar prá lá e arrumar outra. A partir deste dia, todas as vezes que o cara aparece fica insistindo prá que eu arrume uma brasileira prá ele. Até aí, nada demais, não é o primeiro. O problema é que ele quer uma que pareça comigo (até do mesmo peso e altura) e continua a me elogiar, a me lançar olhar de mormaço e a perguntar se eu aceitaria ter um relacionamento com um homem mais novo (eu tenho idade prá ser sua tia!). Nunca tive medo de paquera, anzi, às vezes sinto até falta, mas quando eu corto os papos dele na raiz percebo que ele fica nervoso, com cara de cachorro raivoso e fico imaginando o que pode passar numa cabeça doente daquelas, esperando de não virar notícia de jornal.
Se conto pro meu marido, bota ele prá fora a chutes no saco.

Odeio psicóticos.




BOH...


Alguém pode explicar ISTO?





Quinta-feira, Abril 06, 2006


VOTA PIPOCA!!!!





Nem saio mais de casa prá poder acompanhar a campanha eleitoral. Eu adoro uma baixaria!
Vejam AQUI algumas das cagadas do nosso premier, que é candidato à reeleição..

A destra e a manca se fala de tudo: de crianças cozidas a bebados debaixo do poste mas de projetos pro futuro, necas.

E eu, que não quero ficar de fora, solto o grito de guerra: COGLIONI!!!






Quarta-feira, Abril 05, 2006


POSSO IR?



Continuo recebendo e-mails e scraps no Orkut de pessoas que querem vir para cá e perguntam como é a vida.

Resposta: dura.

Prá quem quer partir do zero, quase impossível. Ao menos que......

. já tenha um trabalho certo com possibilidade de ajuda para alugar uma casa. O salário médio daqui (com muita sorte) para uma

pessoa qualificada é em torno dos 1.200 euros e somente prá alugar um apartamento mixuruca não custa menos de 600/800 euros

e nem vou falar do resto das despesas que com o que sobra não dá nem prá tapar o buraco do dente.

Opção de moradia: vaga junto com outros estrangeiros em torno a 300 euros somente para dormir; casa de parente (se o parente é

italiano: hóspede depois de tres meses, fede; se o parente é brasileiro: idem, pois agora moro na Itália).

. não pense que a cidadania te abre as portas do paraíso. Voce vai ser sempre estrangeiro (pior ainda se fala mal a língua) e vai ter as

mesmas dificuldades de achar trabalho de uma pessoa que não tem cidadania. A vantagem é que não vai ter que viver na Questura

se aporrinhando com a burocracia e a má-vontade/ignorancia dos funcionários.

. não pense que a láurea, pós-graduação ou master vai te ajudar a curto prazo. Tem que se armar de muuuuita paciencia e batalhar

duro prá conseguir, talvez, um stage de no mínimo um ano trabalhando com um salário que só dá prá pagar a passagem. Já pensou

como vai viver durante este tempo? Papai te banca?

. quer abrir uma atividade comercial aqui? O processo dura meses e voce tem que saber se destrincar num emaranhado louco de

burocracia, pedidos absurdos e pagamentos cash por qualquer merdinha que tenha uma letra em cima. E lembre-se: aqui não existe

o "jeitinho brasileiro"...

. vendeu a casa no Brasil e vem com a família prá cá? Ta fudido. Ao menos que a tua casa não seja uma mansão no Joá que te

permita viver por algum tempo até achar alguma coisa prá fazer. Caso contrário, avisa prá patroa que vai ter que arregaçar as

mangas e se acostumar com qualquer emprego que aí nunca pensou em fazer pois, se trabalha somente um membro da família "sono cazzi

amari" (se quer vir prá cá, deve saber o que é isso). Sem falar que prá colocar filho na escola ou arruma babá (mínimo 12 euro/hora)

ou a patroa tem que ficar em casa cuidando do rebento quando não está na escola. Resultado: segura a crise conjugal por falta de

grana.

. quer casar com italiano?


MULHER: esqueça o pé-rapado. Esse papo de amor e um barraquinho sá funciona enquanto tem tesão, que prima o poi acaba. E

quando voce se achar a comer banana com farinha, lembre-se que aqui só tem banana d'água (que enjoa logo) e a farinha é cara,

pois é produto importado. Eu não incentivo o casamento por interesse, pois não faz parte da minha personalidade, mas casar com

pobre na tua terra é já um mau negócio, imagine no exterior!!! Certifique-se que o teu amor tenha condiçoes de ao menos te dar

uma vida decente enquanto voce não se acostuma com o tranco daqui e possa arrumar um trabalho para melhorar a vida a dois e ter

também um pouco de liberdade (é horrível pedir dinheiro pro marido prá comprar calcinha...). Não estou falando isso à toa: já vi

muita mocinha estudada chegar aqui e ter que lavar privada sem nem menos saber uma palavra de italiano. Sem falar naquelas que

acharam um marido que prá "arredondar" as entradas, botaram as lindas ( e até feias...) mulherzinhas brasileiras de mini-saia na

calçada. Aqui, voce só tem ELE prá se apoiar e as dificuldades são tantas já prá quem tem uma vida normal, imagina um

poveraccio.

Mesmo se ele for rico (che culo!) procure não se deitar na manteiga e vá trabalhar do mesmo jeito! Voce só tem a ganhar.


HOMEM: não sei, se vira. Nunca vi brasileiro casado com italiana.


Então, falei algumas coisas que me vieram na cabeça agora. Lógico que depois de 15 anos vivendo aqui me permito de dizer as

dificuldades que vejo/vivi prá outras pessoas. Claro que existem mil caminhos a seguir e cada caso é um caso, não posso dizer a

uma pessoa venha ou não venha sem saber qual é a história que tem atrás, das portas que podem se abrir prá facilitar a sua vida.

Eu falo pelo meu mundinho que é mesmo minúsculo pois moro em cidade pequena, tenho pouquíssimas amizades e vivo trancada

em casa. Tenho 46 anos, uma filha criada que encontra grandes dificuldades em achar trabalho (ela vive aqui desde os 6 anos!) e

não tenho mais o input que leva uma pessoa de 20 anos a mudar de vida radicalmente, muitas vezes sem a devida preparação, com

a cara e a coragem. Quando eu cheguei aqui, quase não tinham estrangeiros e as coisas eram muito mais fáceis. Os italianos ainda

nos viam como uma coisa "exótica" e tivemos muito mais facilidade de integração. Agora, aqui é terra de ninguém, uma miríade de

línguas estranhas fervilham nas ruas. Gente que foge da fome (mas fome mesmo, de dar nó nas tripas) e de guerras

sem fim chegam aqui em carcaças de navios que as jogam no mar para atingir a praia nadando ou escondidos dentro de caixas

num caminhão. E voces, que chegam aqui do aeroporto, em avião da Varig, terão que batalhar corpo a corpo por uma oportunidade

de trabalho com estas pessoas. A Itália está passando por uma crise enorme, como está passando toda a Europa, estamos no

último lugar em muitas coisas e sem querer ser pessimista, tá ruim de ver a luz no fim do túnel.

Outra coisa quero dizer: não peguem as minhas palavras como um ponto final pois é somente uma opinião pessoal, o que quer dizer

que não devem escutar outras palavras, outras experiencias. Quando eu vim para cá, não sabia o que iria encontrar, não tive

ninguém nem para me dizer nem o que se comia, como se vestiam (em 1991, nada de internet!) e até hoje ainda estou aprendendo

a viver aqui.

Querem saber de uma coisa? Se quizer venham, se não fiquem aí.


A discussão está aberta.






Terça-feira, Abril 04, 2006


O CASO TOMMASO OU DE COMO ESTAMOS PERDENDO O SENSO








Peço desculpas aos que moram aqui que, como eu, estão nauseados pelo bombardeio, o ataque sem trégua, dos meios de comunicação com o caso do
menino sequestrado e morto mas queria fazer umas considerações, a título de desabafo, sobre o assunto.

Prá quem ainda não sabe, faço um resuminho do que aconteceu:

Um mês atrás, uma criança de 17 meses, doente de epilepsia, foi sequestrada durante um assalto, por duas pessoas com a cabeça coberta por capacetes de motociclista que
invadiram a casa na hora do jantar e levaram o menino e 150 euros da carteira dos pais, deixando prá trás outros possíveis bens que eles nem se preocuparam em procurar.
O caso foi logo catalogado como um sequestro anormal, já que os pais não eram ricos (todos dois empregados dos Correios) e a única coisa a fazer a este ponto era
esperar o pedido de resgate.

Durante um mês, aconteceu o seguinte:
- o pedido de resgate nunca chegou;
- a Polícia havia um leque de possibilidades para resolver o caso e, durante todo este tempo, investigaram sobre:
. algum cliente do pai, que poderia querer se vingar por lhe ter sido negado algum empréstimo (os Correios aqui são também Banco);
. alguma transação suja, com contas bancárias de mafiosos e/ou presidiários do cárcere da cidade;
. a descoberta de muitos files þedØ-po®nogr@fico$ no computador do padre lhe custou uma denúncia criminal e a explicação que ele havia aqueles 600 files porque
"estava fazendo uma pesquisa para denunciar os sites de þedØ¿ili@...". Este fato chocou bastante a opinião pública e levou a Polícia a dirigir a investigação naquele
ambiente;
. foram também vasculhados todos os relacionamentos familiares e escutada por horas a ex-mulher do pai do menino, que teve um filho com ele e que vive
atualmente na nova família do pai;
. depois de rodar no vazio por vários dias, a Polícia chegou ao ponto de perder um inteiro dia de investigação vasculhando um rio, por indicação de uma médium que
afirmava de ter "visto" o corpo do menino encalhado alí. Depois teve também "o caso do cachorro desaparecido": o cão da família tinha sumido dois dias antes do
sequestro, aparecendo uns vinte dias depois a muitos quilometros de distância. E eu já estava esperando a notícia que o cachorro seria detido para interrogatório.

Finalmente, soubemos que um homem estava sendo indagado. Ele fez trabalhos de manutenção do telhado na casa da família e era Já condenado
por um caso de violência sexual. Este homem foi entrevistado por todos os jornais e tv e proclamava a sua inocência aos quatro ventos com uma cara que,
não sei como dizer, entre o quase contente pela imprevista popularidade (tinha sempre os olhos que sorriam) e o desejo de parecer um santo homem, morrendo de
pena pela infelicidade da situação.

Depois de um mês exato, o caso foi resolvido: o pedreiro "inocente" e um cúmplice confessaram de ter sequestrado o menino e, vinte minutos depois, enquanto fugiam,
de terem caído do motorino em que viajavam todos três por terem se assustado com o lampejante de um carro que pensavam ser da Polícia. O menino começou a chorar
e foi imediatamente assassinado, depois de vinte minutos de ter sido sequestrado, a golpes de, não se sabe ainda, pá ou balde na cabeça e enterrado na beira de um rio.




CHOVENDO NO MOLHADO


Ok, quero falar de indignação. É inútil dizer que uma situação assim é difícil da

suportar. A atrocidade do ato em si já diz tudo, sem precisar dos meus comentários.

Aqui, não se fala de outra coisa e até a importante campanha eleitoral, já no final,

passou a segundo plano.

O que eu queria desabafar é a minha perplexidade pela maneira que durante esse

tempo as notícias chegaram até o público, de como mudou o conceito de fazer

jornalismo em função do desejo das pessoas de saber não somente os fatos, mas

também os detalhes mais escabrosos sem se importar em invadir de maneira

insuportável a intimidade das pessoas, nem menos pensar que um 'scoop' pode

prejudicar as investigações e as "fugas" de notícias são muitas vezes responsáveis

pela "fuga" real dos marginais.

Um tempo, as pessoas podiam escolher em não comprar o jornal sensacionalista ou

não ver a televisão lixeira. Hoje, não. Vão todos pela mesma estrada e se você quizer

saber o que está acontecendo tem que

suportar a invadência, a mal-educação e o jornalista que se diz " de assalto" enfiar o

microfone na boca da mãe do menino morto e perguntar "como é que a senhora se

sente sabendo que seu filho não voltará mais?", " o que a senhora acha do

assassino do seu filho?" e outras pérolas de idiotice.

Como não se indignar com a cena dos "correspondentes especiais" que se

acotovelam no meio da madrugada em frente da casa onde estão os pais do menino,

munidos de camera a longa distancia, para poder dar ao público a satisfação de

escutar o choro contido da mãe ou os parentes que sussurram no meio da sala de

jantar. Sem esquecer do fundo musical com a mesma cançãozinha que colocam

quando fazem reportagem de cachorros abandonados.

Isso deve ser mesmo de muito interesse e de vital importância para todos nós que,

acostumados aos reality shows que invadiram a tv (hoje, aqui na Itália, vão em onda

três realitys diferentes), e não queremos perder um minuto deste reality que mais

real do que isso é impossível. Hoje, por exemplo, ficamos sabendo que o pai foi na

casa onde tudo aconteceu para dar comida e água ao cachorro e ao gato. Não

consegui almoçar enquanto não soube dessa notícia reveladora.

E ainda continua a procissão de centenas de pessoas que foram ao lugar onde o

cadáver do menino foi encontrado para levar flores e tirar fotografias.


Daqui a pouco, torna o processo a Annamaria Franzoni. Mas isso já é uma

outra história.






Sábado, Abril 01, 2006


A maldade do bicho homem tem limite?






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